Crônicas

Minha menina

Ao final de um dia silenciado pela perda de uma amiga querida, bagunçado por estilhaços de memória, invadiu os meus ouvidos um som de infância vindo do parquinho do condomínio. Uma leveza quase me alcançou, não fosse a rispidez com que a tristeza amordaçou minha criança interior. Não foi a primeira vez que ela acabou contida, calada e desacreditada.

Tento estender-lhe a mão, mas ela não confia mais em mim. Foram muitos os abandonos.

Busco convencê-la de que aquela felicidade ingênua de viver sem dar-se conta da morte jamais voltará a nos fazer sorrir sem medo. Perdemos a inocência, a ilusão da presença eterna das pessoas que amamos.

Ela balança negativamente a cabeça. Não crê no meu desespero de realidade. A criança que fui ainda pulsa quando a emoção me toma. Move os lábios, acena como se quisesse alertar sobre a existência de botes para as tormentas.

Não ouço o que diz. Só penso em naufrágios.

Ela sorri, embora sofra todo tipo de escárnio e xingamento. Tola, burra, ingênua, boba. Não percebe que a vida é injusta, cruel, indecente no uso de seu poder e apadrinhamento?

Não perdoo sua falta de malícia. Rasgo suas roupas bordadas de esperança.

Ainda assim, minha criança vive, dança, corre, rodopia, gargalha, sonha e é feliz. Mesmo excluída do direito de se pronunciar. Esperta, bate os seus pés no canto do pensamento, inaugurando um novo código Morse que implora nossa salvação.

Soterro sua presença em resíduos de insegurança, medo, ansiedade, angústia e preocupações. Dou-lhe as costas. Exercito a frieza da maturidade.

Deixem-me crer no amargor dos sábios e seguir encastelada na certeza do desfecho triste. Agora, tudo parece morto dentro de mim. Olho uma última vez para não restar dúvidas sobre o seu fatídico destino.

Lá do fundo de tudo que há em mim, seus dedinhos emergem como prova do seu resistir. Ao longe ouço sua voz a me chamar para brincar de ser feliz. Renuncio às condecorações de guerra. Bandeira branca a minha menina. Ela nunca me causou mal algum.

Machucada, trêmula, assustada, ela corre para os meus braços. Acolho. Acaricio seus cachos. Dou colo.

Nesse encontro do que fui com o que desejo voltar a ser, renasce a aposta no agora, na eternidade do amor e na ingenuidade da paz.

Rimos juntas dessa garotinha desafiadora e abusada chamada vida.

Soraya Jordão

Soraya Jordão é psicóloga e escritora. Nasceu no Rio de Janeiro em 1968, sob o signo de Virgem. Durante a pandemia, descobriu seu interesse pela escrita. É autora do e-book de contos Histórias que contei pra Lua, publicado pela Amazon, em 2022. No mesmo ano, publicou o livro infantil O plano do tomate Tomé, pela editora Itapuca. Foi finalista do concurso Poeta Saia da Gaveta do Verso Falado (2021) e do concurso de crônicas do Instituto Fome Zero (2022). Recebeu menção honrosa no Concurso Literário Relâmpago Virtual, da FALARJ, em 2023. Seu primeiro romance Ciranda de mamutes foi selecionado e publicado pela Editora Patuá em 2023. Escreve para os sites Crônicas Cariocas e Crônica do Dia.

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *

Botão Voltar ao topo

Adblock detectado

Desative para continuar